A presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), Selma Aparecida Cubas, defendeu a universalização do saneamento como ponto de partida para cidades mais justas, saudáveis e resilientes. Em palestra recente, ela destacou os desafios e oportunidades do setor, propondo uma abordagem integrada que vai da saúde pública à economia circular.
“O meu sonho é a universalização do saneamento. Esse é o primeiro passo para formar cidades e comunidades sustentáveis, saudáveis e resilientes”, afirmou Selma, ao destacar que o acesso à água potável, coleta e tratamento de esgoto, drenagem urbana e gestão de resíduos sólidos deve ser visto como um direito fundamental. “Sanear é prevenir doenças. Lembram da pandemia? A primeira instrução era: limpem tudo. Portanto, devemos pensar no saneamento no nosso dia a dia e, a partir daí, pensar no coletivo.”
Segundo ela, o saneamento ambiental é um conjunto de medidas que visa preservar ou modificar as condições do meio ambiente para prevenir doenças, promover a saúde e melhorar a qualidade de vida da população. “Quando tenho saneamento, tenho qualidade de vida, aumento a produtividade e gero economia. Saneamento é saúde, é desenvolvimento, é justiça social.”
Selma chamou atenção para o cenário atual no Brasil, em que mais de 32 milhões de pessoas ainda não têm acesso à água potável. “Só na região Norte, esse índice chega a 29,8%. E as perdas no sistema de abastecimento de água chegam a 60%. Não podemos aceitar isso. Precisamos reduzir essas perdas físicas, que muitas vezes não são erro de medição, mas resultado de estruturas ineficientes”, criticou.
O esgoto também é um problema sério: cerca de 90 milhões de brasileiros não têm acesso à coleta e tratamento de esgoto, sendo que no Norte esse índice alcança 84%. “Enquanto isso, estamos jogando fora metano, hidrogênio, fontes de bioenergia. É um desperdício enorme de potencial econômico e ambiental”.
A gestão inadequada dos resíduos sólidos foi outro ponto destacado por Selma. “Estamos gerando mais resíduos, principalmente com o crescimento populacional e o avanço tecnológico, e ainda não conseguimos dar fim aos lixões. A coleta seletiva ainda é de apenas 14% no Brasil. Isso sobrecarrega os aterros sanitários e aumenta os impactos ambientais.”
Para a especialista, é urgente repensar o ciclo de vida dos resíduos, identificar oportunidades e implantar políticas públicas voltadas à economia circular, bioenergia e soluções baseadas na natureza. “Falar de saneamento é falar de clima, de economia, de saúde, de educação. É tudo isso junto.”
Ela lembrou que um terço dos municípios brasileiros não possui sistema de drenagem urbana, o que agrava os impactos das chuvas intensas. “Estamos vivendo uma emergência climática. Grandes períodos de seca e chuvas cada vez mais concentradas. Sem drenagem, temos alagamentos, deslizamentos, prejuízos econômicos e sociais.”
Selma concluiu sua fala reforçando a necessidade de tratar o saneamento como prioridade nas políticas públicas. “Saneamento é a melhor vacina. É fator primordial na construção de cidades sustentáveis. Se quisermos um futuro mais justo e saudável, precisamos colocar o saneamento no centro das decisões”.
Conteúdo: Básica Comunicações
Foto: Jaqueline Stefanes
