Descarbonização é dever de casa, não milagre financeiro

 “O crédito de carbono não vai deixar ninguém milionário. Mas pode ser a ponte para uma economia mais limpa, resiliente e justa.” A afirmação direta de Diego Flaresso, da GSS Carbono e Bioinovação, abriu sua palestra sobre descarbonização e mercado de carbono com um tom realista e provocador. O especialista destacou que o avanço nesse setor depende de compromisso, planejamento e, sobretudo, ação concreta. “É preciso fazer a lição de casa”, reforçou.

Diego apresentou o caminho para uma atuação responsável e eficaz no mercado de carbono, que vem crescendo no mundo todo. Segundo ele, a jornada passa por etapas como sensibilização climática, inventário de emissões de gases de efeito estufa, definição de metas baseadas na ciência, planos de mitigação e adaptação, medição da pegada de carbono e, finalmente, compensação. “Compensar sem reduzir antes é tapar o sol com a peneira. O processo precisa ser coerente”.

A energia, segundo ele, é o ponto crítico da emissão global de gases de efeito estufa, o que torna a transição energética uma prioridade absoluta. Ele explicou os fluxos de carbono entre atmosfera, biosfera e geosfera e ressaltou o papel das soluções tecnológicas nessa transformação. “A lógica é sair da linha de base – onde ainda se usa combustível fóssil para gerar eletricidade – e migrar para cenários limpos, onde a demanda seja atendida com energia renovável”, explicou.

Nesse contexto, destacou-se o uso do biogás como oportunidade para projetos de carbono. “A produção de biogás que não utiliza eletricidade de fonte fóssil pode ser uma rota eficiente de descarbonização. Mas ainda falta incentivo financeiro”, apontou.

Ao comparar os dois tipos de mercado existentes, Diego explicou que o mercado regulado é centralizado, com regras claras, agentes específicos e preços definidos. Já o mercado voluntário, onde o valor médio da tonelada de carbono gira em torno de 2,4 dólares, depende fortemente de fomento e inovação. “Além dos ganhos climáticos, os projetos que geram benefícios sociais — como geração de empregos, inclusão e desenvolvimento local — também devem ser valorizados. São os chamados cobenefícios, que têm impacto direto no valor do crédito”, explicou.

A palestra também abordou o papel dos certificados climáticos e ambientais, suas aplicações e a urgência de ampliar o financiamento verde. Diego citou dados que mostram a dimensão do desafio: “Para alcançar a neutralidade climática até 2050, os investimentos em tecnologias de baixo carbono precisam chegar a 5 trilhões de dólares por ano até 2030. Os países em desenvolvimento, sozinhos, vão precisar de cerca de 2 trilhões anuais. E mesmo que os países ricos cumpram a promessa dos 100 bilhões por ano, isso ainda será insuficiente. O setor privado terá que assumir o protagonismo”.

No cenário brasileiro, há sinais positivos. Em 2023, o BNDES destinou cerca de R$ 28,4 bilhões para projetos ligados à economia verde — incluindo energia renovável, saneamento e agricultura sustentável. O Brasil, inclusive, é o terceiro maior emissor de títulos sustentáveis da América Latina, com 18% do volume total da região.

Encerrando a fala, Diego reforçou a importância de pensar o carbono não apenas como ativo financeiro, mas como uma ferramenta de transformação. “Descarbonizar não é sobre enriquecer. É sobre regenerar. É sobre garantir que nossos filhos herdem um planeta viável — e isso exige decisão, investimento e ação coletiva”.

Conteúdo: Básica Comunicações

Foto: Jaqueline Stefanes

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