Mobilidade urbana para um futuro mais humano

O processo acelerado e desordenado de urbanização iniciado no Brasil nos anos 1970 moldou cidades marcadas por desigualdades, distâncias e exclusões. “Hoje, 87% da população brasileira vive em áreas urbanas. E, cada vez mais, as pessoas precisam percorrer longas distâncias para acessar serviços, educação, saúde. Isso gera um movimento pendular exaustivo, que consome tempo e afeta a qualidade de vida”, alerta Rafaela Almeida, professora e especialista em mobilidade urbana.

Durante sua palestra, ela destacou que o carro ainda é visto como símbolo de status, o que, somado à precarização do transporte público, cria um ciclo vicioso: mais carros nas ruas, mais congestionamento, mais poluição. “Há trajetos urbanos em que se leva uma hora para percorrer dez quilômetros. E seguimos investindo em infraestrutura para veículos individuais, em vez de pensar soluções centradas nas pessoas”.

Um dos exemplos mais emblemáticos citados por Rafaela é o Plano de Mobilidade de Curitiba. “Em 2008, a maioria dos deslocamentos era feita por transporte coletivo. Já em 2024, mais de 40% das pessoas se deslocam com veículos individuais. Isso demonstra a perda de atratividade do transporte público, que deveria ser acessível, eficiente e sustentável”, analisou.

A professora também chamou atenção para a explosão dos aplicativos de transporte, que cresceram mais de 1.000% nos últimos anos, substituindo parte da demanda que antes era atendida por ônibus. “Essa mudança não é neutra. Ela reforça a exclusão social, porque nem todos podem pagar por um carro ou por corridas em aplicativos. E o transporte público, que deveria ser um direito, vai perdendo investimentos e usuários”.

Rafaela defendeu que é preciso redesenhar as cidades a partir da mobilidade ativa e da apropriação dos espaços públicos. “Calçadas acessíveis, ciclovias, integração de modais, ruas abertas para pedestres. Precisamos inspirar-nos em cidades como Paris, que estão transformando avenidas em vias exclusivas para ciclistas e pedestres. Menos carros significam mais saúde, menos poluição e mais convivência”.

Para ela, as cidades do futuro não podem se limitar à tecnologia: “Não basta serem inteligentes; elas precisam ser humanas. Precisam reduzir distâncias – físicas, sociais e digitais – e promover um transporte público de qualidade, com tarifas justas e integração entre modais”.

Finalizando sua fala, Rafaela Almeida lançou um convite à reflexão: “Não se trata de fechar ruas para carros, mas de abrir caminhos para as pessoas. Mobilidade é direito, é dignidade, é condição essencial para uma vida urbana mais justa e saudável”.

Conteúdo: Básica Comunicações

Foto: Jaqueline Stefanes

Mobilidade urbana para um futuro mais humano

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para o topo